Anastácio da Cunha: vida breve e marcante
| Opinião Adelto Gonçalves 09/07/2006 08:07:8 |
anos depois de lançar o primeiro volume da Obra Literária, de José
Anastácio da Cunha (1744-1787), a Campo das Letras, do Porto, acaba de
colocar nas livrarias o segundo volume com inéditos do autor, num
minucioso e magnífico trabalho de pesquisa das professoras Maria Luísa
Malato Borralho e Cristina Alexandra de Marinho, ambas da Faculdade de
Letras da Universidade do Porto.
Segundo as autoras, ainda está previsto o lançamento de um terceiro
volume, que incluirá, entre outros trabalhos, a polêmica em torno da
matemática que Anastácio da Cunha travou com o ex-jesuíta José Monteiro
da Rocha (1734-1819), que viveu muitos anos em Salvador, na Bahia, e
ficou famoso por sua contribuição para a reforma da Universidade de
Coimbra e, em particular, pela criação do Observatório Astronômico da
Universidade de Coimbra.
Será, com certeza, o coroamento de um trabalho que começou em 1999,
quando a professora Maria Luísa Malato Borralho encontrou composições
inéditas do autor em Braga, num manuscrito que pertencera ao conde da
Barca, e prosseguiu até 2003, quando descobriu nos arquivos londrinos
do King´s College cópias que lhe permitiram preencher lacunas ou
rasuras de cópias portuguesas.
Anastácio da Cunha foi poeta e tradutor, além de militar e professor de
Matemática da Casa Pia de Lisboa. Vítima de perseguição que o levou aos
cárceres da Inquisição e a uma reclusão penitenciária na Congregação
dos Oratorianos, morreu amargurado, depois de uma breve vida marcada
por episódios dramáticos.
Filho de pais humildes, foi educado pelos padres da Congregação do
Oratório na Casa das Necessidades, de Lisboa, onde hoje está instalado
o Ministério dos Negócios Estrangeiros, que desenvolvia uma notável
ação pedagógica, tendo à frente os padres Joaquim de Foios e Teodoro de
Almeida, que também exerceram influência sobre outro grande poeta
setecentista, Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805).
Ainda jovem, Anastácio da Cunha chegou ao posto de tenente do Regimento
de Artilharia do Porto, aquartelado em Valença do Minho, lá
permanecendo de 1764 a 1773, tempo em que teria se iniciado nos
mistérios maçônicos e na leitura de autores proibidos como Voltaire.
Depois, exercendo funções docentes em Coimbra de 1773 a 1778, pode ter
exercido influência decisiva na instalação de uma loja maçônica
coimbrã, como se lê em História da Maçonaria em Portugal: das origens
ao triunfo, de A. H. de Oliveira Marques, v. 1, p. 43 (Lisboa,
Editorial Presença, 1990).
Em julho de 1778, seria detido pela Inquisição, acusado de fazer
“leituras e traduções de autores ímpios”. E do auto-de-fé, o último a
ser realizado em Portugal, sairia condenado, entre estudantes e
militares ou ex-militares de Valença. Proibido de voltar a Valença e a
Coimbra, viveu três anos de reclusão na Congregação dos Oratorianos,
seguida de quatro em Évora, além de ter tido seus bens confiscados,
inclusive seus livros.
Sem nunca ter tido a oportunidade de sair de Portugal, Anastácio da
Cunha sabia ler em castelhano, italiano, francês, inglês, latim e
grego. Mas não teve o seu talento reconhecido pelo mundo oficial: a
Academia Real das Ciências de Lisboa, fundada em 1780, nunca o
convidaria para seu sócio honorário ou correspondente. Solteiro,
morreria de doença provavelmente contraída no cárcere, deixando a mãe
na indigência, a viver de esmolas. As suas obras, copiadas pelos
amigos, não as chegaria a ver em letra de imprensa.
A edição da obra literária de José Anastácio da Cunha, preparada pelas
professoras Maria Luísa Malato Borralho e Cristina Alexandra de
Marinha, é a terceira que saiu à luz até hoje e reúne, no seu primeiro
volume, não só o corpus das edições anteriores, mas também textos que
permaneceram inéditos ou andavam dispersos. Além do ensaio biográfico
de 50 páginas escrito por Maria Luísa Malato Borralho, que dá à luz com
pesquisas de arquivo muitas novidades, o volume contém as composições
em verso do autor, inclusive textos originais.
Já o segundo volume reúne agora traduções, como “Notícias Literárias”,
ensaio em prosa, e “A Voz da Razão”, composição apócrifa que alguma
tradição lhe atribui, e poemas de autores alemães. Embora não soubesse
ler alemão, é provável que os tenha lido em inglês ou francês e dessas
línguas traduzido. Segue um trecho da tradução que fez de um poema de
Salomon Gessner (1730-1788):
Eu amo, eu amo, minha bela Doris,
Daquele mesmo modo que se amava
Antes que a boca suspirar soubesse ,
E que o mundo avistasse horrorizado
Do juramento falso a cruel arte. (...)
Segundo as autoras, ainda que algumas composições, como “Carta a
Doris”, nunca tivessem sido descobertas e outras, como a tradução da
tragédia “Mahomet”, tenham sido editadas sob anonimato, este segundo
volume não pode ser considerado como de menor importância em relação ao
primeiro.
Compreende-se a preocupação das autoras, pois há ainda quem considere a
tradução um trabalho menor, já que o que se lê é, em última análise, um
texto de segunda mão. Até hoje, a tarefa da tradução é trabalho mal
remunerado, o que, muitas vezes, leva editoras, de olho nos custos, a
contratar tradutores pouco capacitados.
No século XVIII, porém, essa idéia de mercado não existia. Nem havia
grande rigor e fidelidade ao original, pois o que os tradutores mais
talentosos o que faziam era um trabalho de recriação. Muitas vezes,
chegaram a superar em beleza o texto original. São os casos de Bocage e
Anastácio da Cunha.
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JOSÉ ANASTÁCIO DA CUNHA: OBRA LITERÁRIA, de Maria Luísa Malato Borralho
e Cristina Alexandre de Marinho (edição). Porto: Campo das Letras, v.
1, Poesia (com inéditos do autor), 2001, 261p.; v. 2 (com inéditos do
autor), 2006, 393 p. E-mail: campo.letras@mail.telepac.pt
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